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quarta-feira, 8 de abril de 2015

Dislexia: veja quando suspeitar e como ajudar


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Dislexia: veja quando suspeitar e como ajudar

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Flávia Duarte - Revista do CBPublicação:24/09/2014 09:02Atualização:23/09/2014 17:29
Ler é mesmo uma tarefa árdua para quem tem o distúrbio. Mais ou menos para alguns deles. Maria Eugênia descreve uma cena que parece saída de filmes de magia. “As letras dançam, as linhas andam. Na hora de ler, você pode pular partes. Por isso a leitura para o disléxico é um processo muito cansativo”, comenta.

Otávio também não tem a leitura como uma atividade propriamente relaxante. “Posso demorar de um ano a 15 dias para ler um livro.” Mas ele não desiste. Lê algumas páginas e anota do jeito que pode em um resumo. Escrever, para ele, nunca será um processo natural. “É a coisa mais louca e arbitrária que alguém pode imaginar.”

'Reconhecer as próprias limitações também é uma forma de ser sábio' - Marco Vinícius Fernandes, professor (Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
"Reconhecer as próprias limitações também é uma forma de ser sábio" - Marco Vinícius Fernandes, professor
Na mochila, ele carrega O herói de mil faces, de Joseph Campbell. Traz dentro dele vários papéis com anotações. São ideias registradas do que já leu para, quando retomar a leitura, recapitular a narrativa. Se não escreve, passado algum tempo, pode perder o rumo da história e ser obrigado a recomeçar tudo. Por isso, lê mais de um livro ao mesmo tempo. É inquieto demais para se concentrar em uma mesma história. Ainda mais quando o raciocínio é tão fugidio. E também lê o mesmo livro mais de uma vez. E o enredo nunca será igual ainda que o mesmo. “Leitura é uma divagação. A gente sempre reedita, mesmo já conhecendo a história.”

Mas por que, para pessoas como Otávio, é tão complicado fazer uma leitura? Maria Eugênia explica que os símbolos que definem o alfabeto não querem dizer nada para um disléxico como ela. Aliás, tudo se mistura. Letras como p, b, d, nada mais são do que o desenho gráfico de uma bolinha com uma perninha em posições diferentes. Por isso, quando estudante, morria de medo de ser chamada em sala para ler algum texto em voz alta. Certamente iria se embananar. “A criança disléxica se finge de árvore dentro da sala de aula. Ela fica encostada na parede para ninguém notá-la”, comenta.

Marco Vinícius Fernandes, 35 anos, não está livre de igual dificuldade. Em casa, o professor lê a Bíblia com a mulher. Ela assume um parágrafo, ele arrisca o próximo e assim seguem sucessivamente. Se ele se dispersa, cria novas palavras. Ela não alivia e o faz voltar à palavra que saiu do prumo. Incentiva o marido a se concentrar e a dizê-la corretamente. Marco sabe o quanto custa a leitura. Demanda tempo e concentração demasiada. Quando está em sala de aula, o esforço ainda é maior para não se perder nos enunciados das tarefas que passa aos alunos. E assim a cada dia supera a própria limitação.

Brincalhão, ele assume logo no primeiro dia de aula que tem algumas particularidades na escrita. Os alunos dele, todos do ensino médio, “e muito preparados no português”, como ele fala, são avisados de que acentuação é algo que não faz parte do português desse simpático professor de biologia. “Já falo que vou escrever algumas palavras erradas e eles me corrigem quando coloco alguma coisa sem sentido no quadro”, diz, tranquilo.

Marco é bem resolvido quanto à dislexia. Sempre desconfiou que sua dificuldade de ler e escrever não podia ser algo normal. Queria estudar medicina, mas percebia que não conseguia passar no vestibular. Queria vê-lo confuso, era pedir para analisar entre as questões da prova aquela que estava incorreta. Decidiu mudar o curso. Passou nas faculdades de biologia e fisioterapia. Fez pós-graduação. Estudava com a mulher. Às vezes, ela lia o conteúdo em voz alta. É que quando o disléxico ouve, registra tudo. Diferente se tem que ler. Mais eficiente aprender ouvindo do que se embaralhar em letras que, muitas vezes, não querem dizer nada.

E, determinado, Marco foi dar aula. Não desistiu do sonho de ser médico, porém. Pagou um ano e meio de aula particular de português, física e matemática. Também tem traços de discalculia e fazer contas não é algo que faça com um pé nas costas. Fez três vestibulares em faculdade particular e passou. Está no terceiro ano de medicina. “Eu sabia que não conseguiria entrar na UnB. Reconhecer as próprias limitações também é uma forma de ser sábio”, garante ele. E, assim, ele lida com o problema. Brinca com o que não consegue fazer. Cantar uma música? Não dá, pois ele não decora a letra. Deixa de cantar? Nem pensar! “Então crio uma nova letra”, faz uma piada séria.

Na hora de escrever um documento mais formal, no qual os erros não serão aceitos, Marco pede ajuda ou simplesmente pensa até encontrar as palavras que já decorou a ortografia. O resto, leva na brincadeira. Se apresenta um power point na aula e nota que uma palavra saiu errada, avisa logo à plateia que o autor do texto foi um disléxico. “Por isso, criei um mecanismo de defesa: como não sou bom na escrita, sempre faço um resumo do que estou estudando e o decoro”, comenta o professor, que há seis anos procurou ajuda de um psiquiatra porque estava se achando muito esquecido, a ponto de ter deixado a mulher trancada em casa mais de uma vez.

Quando suspeitar

Alunos com desempenho inconstante.
Lentidão nas tarefas.
Demora na aquisição da leitura e da escrita.
Escrita incorreta, com trocas, omissões, aglutinações, desaglutinações de fonemas.
Dificuldade em rimas.
Discrepância entre as realizações acadêmicas e o potencial cognitivo.
Dificuldade em organização sequencial, por exemplo, meses do ano, alfabeto, tabuada.
Prejuízo na orientação temporal: direita, esquerda, horas.
Desconforto ao tomar notas, bilhetes, recados.


Fonte: Mariflor Maia, psicopedagoga do centro especializado em dislexia e dificuldades de aprendizagem


Como ajudar
  • Leia para a criança todos os dias: livros, jornais, revistas e qualquer coisa que realmente o interesse.
  • Encoraje-o a ler todo tipo de texto, não importa o modo como o faça. Quanto mais agradável for, melhor.
  • Permita o uso de marcadores para seguir a leitura.
  • Grave textos.
  • Use canetas marca-texto para ressaltar os itens a serem lembrados.
  • Incentive revezar a leitura, em voz alta, de frases e parágrafos de um texto com outra pessoa.
  • Associar sons e imagens a palavras ajuda a gravar o modo de escrevê-las.

Fonte: com informações do livro Nem sempre é o que parece — como enfrentar a dislexia e os fracassos escolares e da fonoaudióloga Alice Sumihara, especialista em transtorno de deficit de atenção (TDAH) e dislexia pela ABD.

Um passeio pela mente dos disléxicos

Um passeio pela mente dos disléxicos

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Flávia Duarte - Revista do CBhttp://sites.uai.com.br/app/noticia/saudeplena/noticias/2014/09/24/noticia_saudeplena,150491/um-passeio-pela-mente-dos-dislexicos.shtml
Para entender como funciona a mente de um disléxico, só mesmo conversando com eles. “Cada dislexo é diferente”, atesta Maria Angela Nico, fonoaudióloga e psicopedagoga da ABD. Por isso, o psicanalista Otávio Giacomo dá logo um chute e começa o papo dizendo que preferia ter uma deficiência aparente. Acha que, se sua limitação fosse óbvia, não teria sofrido tanto ao longo da infância até o início da vida adulta. “É muito difícil não ser burro e ser tratado como idiota”, resume sem rodeios, e segurando o choro.
O estudante Matheus Félix, 15 anos, estuda teorias de história e geografia com música (Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
O estudante Matheus Félix, 15 anos, estuda teorias de história e geografia com música

Ele é um tipo grandalhão. Alto e largo. Impossível não notá-lo. Seja pelo tom de voz empostada, seja pela risada sonora e de frequência generosa. Ele se define como um psicanalista às avessas e acredita que o bullying tem lá seu efeito terapêutico, apesar da dor. É o preconceito que fortalece e obriga a suposta vítima a encontrar soluções.

Foi assim com ele. Em sala de aula, Otávio compreendia tudo o que o professor explicava. Às vezes, tanto sabia, que até perdia o interesse na aula. Aliás, não é privilégio dele. A maioria dos disléxicos tem uma inteligência acima da média. A explicação de Otávio para esse predicado está na matemática. “Eu uso mais meu cérebro do que você. Da mesma forma que encontro outro caminho para aprender, vou usar essa energia para fazer outras coisas”, considera ele.

A designer de interiores Maria Eugênia Ianhez, 46 anos, também encontra uma justificativa para a compensação. Como o lado esquerdo do cérebro do disléxico, onde são processadas as funções de leitura, escrita e cálculos matemáticos, funciona diferente, o direito seria mais eficiente. É justamente esse o lado da emoção e da criatividade. Talvez fosse essa uma explicação para existir entre artistas e pintores famosos tantos com traços da dislexia.

'As letras dançam, as linhas andam, na hora de ler você pode pular partes. A leitura para o disléxico é um processo muito cansativo' Maria Eugênia Ianhez, designer de interiores (Arquivo Pessoal)
"As letras dançam, as linhas andam, na hora de ler você pode pular partes. A leitura para o disléxico é um processo muito cansativo" Maria Eugênia Ianhez, designer de interiores
Maria Eugênia mesmo garante que “adora” fazer parte do grupo dos disléxicos. “Tenho competência para saber o que suprir minhas necessidades e não cometer erros. Sou mais intuitiva, criativa e isso me coloca na frente dos outros”, avalia, a moça falante, bem articulada e sem nenhum indício de que sofria tanto para ler, escrever e entender as ideias que estavam representadas em letras.

Aliás, ser a mais querida e a mais simpática da turma foi uma estratégia de sobrevivência que ela encontrou para superar as dificuldades na escola. Se não conseguia colocar no papel os símbolos corretos que formavam as palavras, era ela quem apresentava os trabalhos orais diante da turma. Compensava a falta de jeito com o português, com a simpatia e a desenvoltura.

E assim é com cada disléxico, que encontra uma forma própria de superar as dificuldades. A associação é uma delas. Maria Eugênia explica que associar uma palavra a imagens, facilita lembrar a forma de escrevê-la. Um exemplo seria a palavra “ingresso”. “Um disléxico uma vez disse que sabia que era com dois SS já que, para ele, bom era ir ao cinema acompanhado. Então o S também aparecia em casal”, diz Maria Angela, da ABD.

E outras estratégias são válidas. O estudante Matheus Félix, 15 anos, só estuda teorias de história e geografia com música, por exemplo. A mãe dele, a funcionária pública Lusimar Félix, achou o hábito estranho e pensou que o gosto só podia ser desatino para o menino que já tinha tanta dificuldade de compreensão. Mas ela, nem ninguém, pode entender como funciona a mente de um disléxico. O jovem explicou que a música não atrapalhava. Ao contrário, ele associava um trecho da canção ao que lia no texto. Assim, gravava a teoria mais facilmente.

O importante apoio
Mais conscientes do problema, as escolas estão se preparando para receber os alunos com dislexia e oferecer um método de ensino que facilite o aprendizado desses meninos. No Sistema Mackenzie de Ensino, por exemplo, os professores recebem capacitação para ajudar as crianças diagnosticadas a cumprirem tarefas e assimilarem conteúdos. A coordenadora do grupo, Débora Bueno Muniz Oliveira, explica inclusive que eles estão desenvolvendo um projeto para que os livros usados no ensino médio tenha uma diagramação especial, com mais espaço entre linhas, e parágrafos mais curtos e espaçados. Isso evita que os disléxicos misturem as letras e percam o rumo da leitura. “Além disso, se o aluno chega com o laudo, nós oferecemos mais tempo para ele fazer uma atividade. As nossas provas também são mais limpas, com menos informações, e também oferecemos um ledor, caso ele precise”, comenta Débora.

No Distrito Federal, a Secretaria de Educação também oferece salas de apoio aos alunos que são diagnosticados com o distúrbio. Em turno contrário ao da aula, os estudantes são acompanhados em aulas de reforço para aliviar algumas dificuldades. Mas o apoio da família é essencial. Lusimar Félix, por exemplo, nunca julgou o filho Matheus Félix, 15 anos, por ele apresentar baixo rendimento na escola. Nunca pensou que fosse resultado de falta de empenho do garoto. Ao contrário, buscou ajuda profissional para ajudá-lo a superar as confusões de compreensão, resultado da dislexia. Ele faz aula de reforço particular, tem acompanhamento com fonoaudióloga, que o ajuda com a troca de letras, e apoio psicólogico para superar o jeito retraído. A mãe sempre estudou com ele. Contava histórias e criava imagens na cabeça do menino para que ele associasse a determinados conteúdos e registrasse na mente. Treinavam juntos a escrita das palavras. Ele gosta de gibi. Um jeito divertido de incentivar a leitura prazerosa e associar a escrita com imagens. O adolescente tem se saído bem. Até a sala exclusiva para fazer prova, em tempos separados, ele dispensou. Quer ser avaliado com a turma. Quer ser igual aos colegas. “A dislexia não é um doença, mas um transtorno que tem solução”, define Lusimar.

Dislexia não é doença; transtorno da linguagem é confundido com falta de interesse e preguiça

Dislexia não é doença; transtorno da linguagem é confundido com falta de interesse e preguiça

II Fórum Mundial de Dislexia ocorre até quarta-feira, na UFMG. Especialistas nacionais e internacionais discutem pesquisas, prevenção, diagnóstico e tratamento da enfermidade

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Lilian Monteiro - Estado de MinasPublicação:19/08/2014 14:00Atualização:19/08/2014 12:35
Causas da dislexia não estão relacionadas ao baixo desempenho intelectual, escolarização deficiente ou problemas motivacionais e familiares, apesar de poder surgir junto a esses fatores (Janey Costa / EM / DA Press)
Causas da dislexia não estão relacionadas ao baixo desempenho intelectual, escolarização deficiente ou problemas motivacionais e familiares, apesar de poder surgir junto a esses fatores
A dislexia não é uma doença, mas sim um transtorno do desenvolvimento da linguagem que afeta a aprendizagem da leitura, da escrita e da soletração. É muitas vezes confundida com falta de interesse, desatenção ou preguiça. A falta de conhecimento ou precisão do diagnóstico penaliza muitas pessoas que, na verdade, precisam de ajuda e tratamento. “A dislexia é uma condição neurobiológica, pois é uma falha no processamento da informação no cérebro.

De modo geral, ela está associada a dificuldades em outras áreas do desenvolvimento, como a concentração, a memória de trabalho e a capacidade de organização. Suas causas não estão relacionadas ao baixo desempenho intelectual, escolarização deficiente ou problemas motivacionais e familiares, apesar de poder surgir concomitantemente a esses fatores”, explica a doutora em psicologia cognitiva pela Universidade de Dundee, na Escócia, Ângela Maria Vieira Pinheiro, professora titular do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e presidente do II Fórum Mundial de Dislexia (IIWDF), que começa hoje em Belo Horizonte.

Ela informa que pesquisas em diferentes países apontam que a prevalência da dislexia pode chegar a 10% da população, ou mais. Desse modo, cerca de 700 milhões de pessoas no mundo sofrem desta condição. “Vale destacar que o quadro irreversível é apenas para a parte neurológica da condição, uma vez que as suas manifestações comportamentais, tanto na linguagem falada quanto na escrita, podem ser prevenidas ou minimizadas”.

Promovido pela Dyslexia International, o Fórum Mundial é o segundo de uma série de cinco realizados em cada uma das cinco regiões designadas pela Unesco. O primeiro representou a Europa e América do Norte (França, 2010), o segundo a América Latina e o Caribe (BH, 2014) , sendo que os demais vão ocorrer na África (Maurício, 2016), Estados Árabes (2018) e na Ásia e Pacífico (2020). Na UFMG, o evento terá conferências, mesas redondas, grupos de discussão e workshops oferecidos por mais de 26 renomados pesquisadores internacionais, 15 pesquisadores nacionais e por autoridades educacionais. Um dos destaques será a sessão World Profile, na qual representantes de quatro das seis línguas oficiais da Unesco – árabe, chinês, inglês, francês, russo e espanhol – apresentarão um relato dos trabalhos sobre “A melhor prática no ensino da leitura e da escrita”. “Outro ponto alto do evento será a apresentação dos resultados do curso Aprendizagem on-line, conhecimento básicos para professores. Dislexia, como identificar e o que fazer (confira a versão brasileira desse curso em dislexiabrasil.com.br).”

ORIENTAÇÃO
Ângela Pinheiro explica que a prevenção da dislexia ocorre por meio de programas de orientação de pais sobre como estimular o desenvolvimento da linguagem falada de suas crianças desde o nascimento (bom exemplo é o projeto de extensão desenvolvido no ambulatório de crianças de risco – ACRIAR – no Hospital das Clínicas da UFMG na capital mineira e nos postos de saúde) e por meio da identificação precoce no ensino infantil com o auxílio de professores bem treinados para reconhecer os primeiros indícios de risco do transtorno. “Ambos, pais e professores, devem ser conscientizados sobre os seus papéis como os primeiros agentes na identificação dos fatores precursores das dificuldades de aprendizagem, especialmente da dislexia”, indica a professora.

A psicóloga e professora da UFMG Ângela Maria Vieira Pinheiro, que preside o evento, diz que distúrbio está associado a baixa concentração, memória no trabalho e capacidade de organização da pessoa (Edesio Ferreira/EM/D.A Press)
A psicóloga e professora da UFMG Ângela Maria Vieira Pinheiro, que preside o evento, diz que distúrbio está associado a baixa concentração, memória no trabalho e capacidade de organização da pessoa
A pesquisadora lembra que “a dislexia é o distúrbio (ou transtorno) do aprendizado mais frequentemente identificado na sala de aula. Está relacionado, diretamente, à reprovação escolar, sendo causa de 15% delas. Em nosso meio, entre alunos das séries iniciais (escolas regulares) têm sido identificados problemas em cerca de 8%”. Ela diz que concorda com os que dizem “que a condição pode atingir igualmente pessoas das raças branca, negra ou amarela, ricas e pobres, famosas ou anônimas, pessoas inteligentes ou mais limitadas”.

Um distúrbio de múltiplas facetas
A psicóloga Ângela Maria Vieira Pinheiro ressalta que existem algumas explicações, não mutuamente excludentes, para as causas da dislexia, já que é um transtorno com múltiplas facetas. Entre elas, “fatores nutricionais durante a gravidez da mãe e na primeira infância da criança, bem como a resistência imunológica do feto. Pesquisas demonstram uma carga genética. Na mesma família, se um dos membros tem dislexia, há uma probabilidade de 50% que um dos seus parentes próximos também seja disléxicos”, diz. No entanto, isso não significa que as duas pessoas exibirão os mesmos traços, nem que terão o mesmo grau, já que o transtorno pode variar de leve a severo. “Outra hipótese, que não é incompatível com as anteriores e que é defendida pelo professor Stanislas Dehaene (um dos ilustres palestrantes do IIWDF), é que os neurônios que formam os caminhos entre as regiões cerebrais envolvidas na leitura não se desenvolveram e não se moveram para suas posições normais por causa de uma codificação genética defeituosa”, acrescenta.

A professora ensina ainda que as alterações ocorreriam em um gene do cromossomo 6. “A dislexia, em nível cognitivo-linguístico, reflete um déficit no componente específico da linguagem, o módulo fonológico, implicado no processamento dos sons da fala.” Ângela conta também que um gene recentemente relacionado com a dislexia foi chamado de DCDC2. “Segundo Jeffrey R. Gruen, geneticista da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, ele é ativo nos centros da leitura do cérebro humano. Outro gene, chamado Robo1, descoberto por Juha Kere, professor de genética molecular do Instituto Karolinska de Estocolmo, é um gene de desenvolvimento que guia conexões, chamadas axônios, entre os dois hemisférios do cérebro.”

A presidente do fórum avisa que a avaliação final deve ser feita por uma equipe multidisciplinar que inclui psicólogo, fonoaudiólogo, psicopedagogo e clínico, que pode solicitar encaminhamento a neurologista, oftalmologista e outros especialistas, conforme o caso. Ângela enfatiza que “não existe teste único de dislexia, mas um conjunto de provas que cognitivas, de inteligência, memória auditiva e visual, fluência verbal, sequenciamento, testes com novas tecnologias, entre outros”. O tratamento é individualizado, de acordo com cada caso, para ter abordagem eficaz. “O profissional usa a linha terapêutica que achar mais conveniente e os resultados surgem de forma progressiva.”

O PAPEL DO PROFESSOR
Ângela destaca que o professor tem papel crucial na identificação de crianças com dislexia. “Quando bem treinado, ele pode fazer uma avaliação informal da leitura da criança por meio de tarefas de consciência fonológica, de leitura e soletração de palavras e pseudopalavras e de compreensão de textos. E com a avaliação informal, ele deve passar a suspeita para um profissional qualificado.” Ela adverte que “a intervenção deve envolver o desenvolvimento da consciência fonológica (especificamente, a consciência dos fonemas) e ensino explícito e intensivo da leitura e da escrita por um método fônico em que as letras e os dígrafos são associados aos seus sons correspondentes (fonemas) e vice-versa, por meio de estratégias multissensoriais.

“A boa notícia é que é possível ensinar a quase todos os tipos de crianças a aplicar o princípio alfabético – o conhecimento de que as letras que formam as palavras escritas representam os sons da fala – para decodificar novas palavras.” Quanto à prevenção, Ângela diz que a prática de cursos de treinamento para pais pode evitar que condição seja identificada só na pré-escola. “É importante cultivar pequenos leitores desde o nascimento. Cerca de 50% da habilidade verbal de uma criança é proveniente da genética, os outros 50% são atribuídos ao conhecimento adquirido no ambiente, sendo grande parte desse conhecimento aprendido em casa.”

Serviço:
Evento: 2º Fórum Mundial de Dislexia (World Dyslexia Forum)
Local: UFMG, Avenida Presidente Antônio Carlos, 6627, Pampulha, Belo Horizonte
Informações: www.wdf2014.com.br

Mitos e verdades

1) A dislexia é contagiosa? Não. Ela é usualmente hereditária.

2) Uma pessoa pode ser medianamente disléxica? Sim. Ninguém apresenta um quadro com todos os sinais de dislexia.

3) A dislexia é uma doença? Não, mas um transtorno de aprendizagem.

4) A dislexia pode passar sem que se tome alguma providência? Não. Quanto antes ela é identificada e são tomadas as medidas de tratamento, maiores podem ser os benefícios do tratamento.

Alguns sinais indicadores:

1) Pré-escola e pré-alfabetização: aquisição tardia da fala, pronunciação constantemente errada de algumas sílabas, crescimento lento do vocabulário, dificuldade em aprender cores, números e copiar seu próprio nome, etc.

2) Início do ensino fundamental, alfabetização: aprender o alfabeto, discriminar fonemas de sons semelhantes (t/d; g/j; p/b), diferenciação de letras com orientação espacial (d/b; d/p; n/u; m/u), orientação temporal (ontem – hoje – amanhã, dias da semana, meses do ano), etc.

3) Ensino fundamental: atraso na aquisição das competências da leitura e escrita, nível de leitura abaixo do esperado para sua série e idade, dificuldade de soletração de palavras, ler em voz alta diante da turma, supressão de letras (cavalo/caalo; biblioteca/bioteca; bolacha/ boacha), etc.

4) Ensino médio: podem ter dificuldade em aprender outros idiomas, leitura vagarosa e com muitos erros, permanência da dificuldade em soletrar palavras mais complexas, atenção demasiada a pequenos detalhes, vocabulário empobrecido e criação de subterfúgios para esconder sua dificuldade, etc.

5) Ensino superior, universitário: letra cursiva, planejamento e organização, dificuldade com horários (adiantam-se, chegam tarde ou esquecem), falta do hábito de leitura e normalmente têm talentos espaciais (engenheiros, arquitetos, artistas), etc.



 (Soraia Piva / EM / DA Press)
Giuliano Gomes, empresário, 35 anos: Incentivo à leitura
O empresário Giuliano Gomes conta que descobriu a dislexia no ensino fundamental. “Tomei bomba em português e minha mãe, preocupada, foi pesquisar o por quê”. Ele revela que “entendia e falava bem, mas trocava as letras na hora de escrever. Principalmente, o p com o b e o t com o d”. Na época, a mãe o levou para um psicólogo. “Lembro que passei a treinar muito ditado e leitura. Minha mãe me incentivava a ler. Ela me acompanhou de perto e me fez criar o hábito da leitura, o que me ajuda muito e vai me acompanhar por toda a vida.” Giuliano afirma que até hoje tem dificuldade, mas lida muito bem com o distúrbio.

“Ao escrever e-mails e mensagens, me habituei a ler, reler, dar uma pausa e ler de novo. Às vezes, passa algum erro. Tenho de prestar muita atenção.” Ele conta que nunca sofreu preconceito por causa da dislexia e encara numa boa e com naturalidade “algumas brincadeiras dos amigos, que ligam e me perguntam o que quis dizer num e-mail”. Além de ler e se forçar a escrever, Giuliano explica que encontrou outro caminho para conviver, numa boa, com o transtorno. “Ao longo dos anos, criei meios para facilitar minha vida. Passei a prestar mais atenção em tudo e procuro associar uma palavra a outra.”